Postado em 23 de Novembro de 2018 às 17h53

Sombra e água fresca

Suinocultura (9)
A qualidade do ambiente é essencial para que haja conversão alimentar, menos estresse, e mais bem-estar animal.
 
Um ambiente confortável tem como princípio básico a minimização de fatores estressantes aos animais, que visa garantir o bem-estar e leva em conta aspectos como densidade animal, possibilidade de desenvolver o comportamento natural da espécie, bem como ambientes aéreo e acústico satisfatórios.
 
No livro “Produção de Suínos Teoria e Prática”, a engenheira agrícola Irenilza de Alencar Nääs e as zootecnistas Fabiana Ribeiro Caldara e Alexandra Ferreira da Silva Cordeiro, discorrem sobre o conceito de ambiência para suínos, que pode ser definido como conforto baseado no contexto ambiental, levando-se em consideração características do meio ambiente e fisiológicas, que atuam na regulação da temperatura interna do animal.
 
Elas explicam que os suínos são animais homeotermos, capazes de controlar sua temperatura interna quando submetidos a variações de temperatura, possuindo um centro termorregulador no sistema nervoso central. O hipotálamo é o órgão responsável pelo controle da produção e dissipação de calor através de diversos mecanismos como, por exemplo, o fluxo de sangue na pele (mecanismo vasomotor), ereção de pelos, modificações na frequência respiratória e no metabolismo.
 
O calor do ambiente envolve a temperatura, a velocidade do ar, a radiação e o tipo de piso ou cama utilizados. Os fatores meteorológicos influenciam diretamente o organismo animal, mediante o fluxo de energia que ele será capaz de absorver ou emitir. Assim, o animal porta-se como um sistema termodinâmico que troca constantemente energia com o ambiente.
 
De acordo com as autoras, os suínos possuem o aparelho termorregulador pouco desenvolvido, são animais sensíveis ao frio quando pequenos e sensíveis ao calor quando adultos, o que dificulta sua adaptação em ambientes excessivamente quentes. Os suínos possuem poucas glândulas sudoríparas na pele e são, portanto, menos eficientes na resposta ao estresse pelo calor em relação às outras espécies. A principal forma de perda de calor nessa espécie é por meio do aumento da taxa respiratória (evaporativa), ou seja, aumento dos movimentos respiratórios por minuto.
 
Com extensa atuação na Suinocultura, o doutor em zootecnia e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Caio Abércio da Silva, também explica que para cada faixa etária ou fase pela qual o animal passa (gestação, lactação e afins) há uma temperatura dita de conforto ou de termoneutralidade, que significa que dentro de uma determinada faixa térmica ambiental, o animal não estará em estresse, ou pelo calor ou pelo frio. Nesta condição ele não gasta energia para perder calor (se estiver com calor) ou para aquecer-se (se estiver com frio) e, portanto, usa esta energia para os fins nobres que são efetivamente o objetivo da atividade, como ganhar peso, gestar ou produzir leite.
 
Os fatores ambientais externos e o microclima dentro das instalações exercem efeitos diretos e indiretos sobre os suínos, em todas as fases de produção, e provocam redução na produtividade, com consequentes prejuízos econômicos à produção suinícola. Quando os animais são expostos a temperaturas adversas, eles ficam estressados não apenas pela alteração da temperatura corporal, mas também pela complexidade dos processos dissipadores e geradores de calor.
 
MENOS QUALIDADE
 
A ausência de bem-estar aos animais criados para a produção de carne pode resultar em um produto de qualidade inferior e de baixo valor comercial. No caso dos suínos, pode haver maior incidência de carne com PSE (pálida e mole), DFD (escura, dura e seca) e com menor tempo de vida de prateleira. Os suínos produzidos sem as mínimas condições de bem-estar podem apresentar desde hematomas, ossos danificados, mudanças de comportamento até quadros mais crônicos de estresse.
 
Dr. Caio informa que as altas temperaturas são bastante negativas para animais acima de 25 kg de peso vivo e mais críticas ainda para aqueles em idade mais próxima do abate, para matrizes gestantes e lactantes e reprodutores. No entanto, as condições térmicas teriam que ser muito extremas para elevar as taxas de mortalidade.
 
Uma condição mais comum, mas também crítica e de grande peso econômico, é a piora do desempenho zootécnico, como o baixo consumo de ração e a consequente piora do ganho de peso para animais destinados ao abate ou a queda da produção leiteira no caso de matrizes, com comprometimento do desenvolvimento e da saúde dos leitões lactentes, com aumento de diarreias e de mortes. As consequências também são negativas para as questões sanitárias, pois um estresse prolongado por altas temperaturas deprime a imunidade, abrindo espaço para agentes oportunistas e doenças.
 
Ele acredita que o recurso mais efetivo para atender a correta demanda de cada fase é a climatização das granjas. No entanto existem recursos que podem minimizar este problema. Destacam-se, neste sentido, ações construtivas e/ou uso de materiais apropriados para a edificação dos galpões, além de equipamentos como ventiladores e aspersores que, quando associados, potencializam a qualidade ambiental.
 
O galpão ideal deve apresentar:
- Estrutura com pé-direito alto;
- Telhas com bom isolamento térmico (telhas isotérmicas);
- Telhas de cores claras;
- Uso de forro;
- Arborização nas laterais dos barracões;
- Orientação da cumeeira no sentido leste-oeste;
- Janelas amplas ou com as laterais abertas (com paredes laterais baixas) e com cortinas.
- Não é recomendável a utilização de barracões muito largos
 
Para o uso correto destes recursos o produtor deve ter um termômetro no interior do galpão que faça a leitura “on time” da temperatura, que servirá como referência para as ações que são demandadas, como abrir cortinas ou janelas e ligar ventiladores e aspersores. Há sistemas com termostatos, que de forma automática, respondem às condições de temperatura adversa no barracão, abrindo cortinas e acionando equipamentos, o que pode evitar a subjetividade ou erros humanos.
 
Outro ponto importante é o número de animais por metro quadrado. A área destinada para cada animal depende do seu peso e de sua fase, mas também varia conforme o modelo da instalação (se individual ou coletiva) e número de animais por baia e o tipo de piso adotado na baia (compacto, parcialmente ripado ou totalmente ripado).
 
INVESTIMENTO  
 
Caio Abércio da Silva, que é um dos autores do livro “Bem-Estar dos Suínos”,  observa que a climatização exige em geral um maior investimento, no entanto, o termo correto é investimento e não custo. “Isto significa que estaremos atendendo as exigências dos animais quanto à temperatura, e assim garantindo um melhor bem-estar animal – um tema que está em evidência atualmente –, melhorando o consumo de ração, o ganho de peso e a conversão alimentar por toda a vida da granja, como também os índices reprodutivos ”,  afirma.
 
PREJUÍZOS
 
Um ambiente estressante para o animal traz diversos prejuízos a saúde do suíno e como consequência na qualidade da carne. Podemos categorizar estes problemas da seguinte forma:
 
 MATRIZES
 
· Em gestação a taxa de retorno ao cio e os abortos aumentam e a taxa de parição e o número de nascidos diminui.
· As lactantes produzem menos leite, perdem mais peso durante esta fase e demoram mais a entrar em cio após o desmame.
· Porcas lactantes em estresse térmico pelo calor, por consumirem menos e terem menor produção leiteira, apresentam leitegadas ao desmame mais leves, mais propensas às diarreias e à morte.
 
REPRODUTORES
 
· Para os reprodutores a qualidade do sêmen piora, reduzindo o número de doses por coleta e aumentando as taxas de retorno ao cio. 
 
TERMINAÇÃO
 
· Para animais em fase de crescimento e terminação o desempenho como um todo é prejudicado. O ganho de peso é reduzido e a conversão alimentar é piorada.
· Para todas as categorias, um aspecto comum é a queda da imunidade, um quadro que expõe os animais aos desafios inerentes da granja, com maior expressão de quadros sanitários digestivos, respiratórios e reprodutivos. 
 
Foto Shutterstock
Revista Setor Agro & Negócios A qualidade do ambiente é essencial para que haja conversão alimentar, menos estresse, e mais bem-estar animal.   Um ambiente confortável tem como princípio básico a...

Veja também

Com R$ 225,59 bilhões, Plano Safra 2019/2020 é lançado18/06 O lançamento ocorreu no Palácio do Planalto, com a presença do presidente Jair Bolsonaro. A ministra Tereza Cristina destacou que o plano atenderá pequenos, médios e grandes produtores. O governo federal lançou nesta terça-feira (18), em cerimônia no Palácio do Planalto, o Plano Safra 2019/2020, que irá atender pequenos, médios e......
Recorde de público no 20º Simpósio Brasil Sul de Avicultura02/04 O teatro lotado demonstrou o sucesso do primeiro dia do 20º Simpósio Brasil Sul de Avicultura, que iniciou hoje em Chapecó. Em paralelo as palestras técnicas de altíssima qualidade, acontece também a Brasil Sul Poultry......
Produtores de maçã comemoram a chegada do frio em Santa Catarina08/07 As baixas temperaturas dos últimos dias vieram para tranquilizar os produtores de maçã de Santa Catarina. As macieiras precisam do frio para se desenvolver e gerar bons frutos, justamente por isso são plantadas nas regiões......

Voltar para EDITORIAS