Postado em 23 de Novembro de 2018 às 17h09

Milho em Santa Catarina - Uma conta que não fecha

Grãos (20)

O Estado é um dos maiores consumidores do grão no país, mas não é autossuficiente. Com baixa oferta, quem depende do grão tem uma equação difícil para resolver: reduzir margem de lucro, mantendo qualidade e volume.

Santa Catarina é o grande polo industrial quando se fala na produção de proteína animal. Mas um fator extremamente importante está aumentando as dificuldades do setor: o déficit entre produção e consumo de milho, a principal matéria . prima para alimentação dos animais. Para suprir esse recurso, indústrias, cooperativas e produtores precisam importar o grão, o que encarece expressivamente o custo de produção.

De acordo com dados do Ministério de Agricultura, Pesca e Abastecimento (MAPA), somente em 2017 foram importados mais de 181 mil toneladas do grão. Até o mês de julho deste ano, o valor chegou a 64 mil. Número significativo, principalmente quando colocado na ponta do lápis: em menos de dois anos já foram R$146 milhões

Esses números são consequência da baixa produção e alto consumo do grão, que hoje é trazido de Estados do Centro-Oeste do país, como Mato Grosso e Tocantins, com um custo médio de R$16 a saca, levando em consideração o preço do frete. Esse valor equivale a quase 70% do custo total da produção de proteína animal, segundo o diretor executivo do Sindicarne/ACAV, Ricardo Gouvêa.

A Copérdia, localizada em Concórdia, no Meio Oeste do Estado, é apenas uma das cooperativas catarinenses, que mesmo produzindo, precisa adquirir o insumo em outros Estados. São 17 mil associados que atuam na área de milho e proteína animal. O maior volume de produção está na carne.

De acordo com a cooperativa, os valores para manter a lavoura variam de R$26 a R$30 reais a saca. Por conta disso, acabam importando o milho de estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná.

Novela na suinocultura

Para os suinocultores, os reflexos negativos da falta do grão perduram há anos, uma triste realidade que parece não ter fim. E o resultado deste cenário? Já tem muito criador abandonando a atividade.
O presidente em exercício da Associação Catarinense de Criadores de Suínos, Vilson Spessato, indica que o custo de produção chegou a R$4,17/quilo no mês de junho. Somando a quantia de animais, esse valor torna-se bem salgado aos produtores. Segundo ele, pagar caro acaba sendo a única saída para que Estado continue liderando a criação de suínos no país.

Outro fator que tem contribuído para a falta de milho, e como consequência a alta nos valores, é que Santa Catarina aumentou significativamente o total de área plantada de milho para silagem, devido ao aumento na produção de leite. “Nesse sentido o Estado tem mais um “bom” problema, que é a competição pelo milho vinda da produção de leite, um novo grande consumidor”, destaca o secretário de Agricultura e Pesca do Estado, Airton Spies.

Aumentar para diminuir?

Apesar de todas as dificuldades encontradas no setor, existe a possibilidade de amenizar a situação. Aumentar a relação comercial com o país vizinho pode ser uma eficiente estratégia para diminuir o déficit.

Uma das alternativas é a chamada Rota do Milho. O Estado pretende importar milho do Paraguai, levando em consideração que o país está mais perto de Santa Catarina do que os Estados de onde o grão comprado atualmente. “O Paraguai tem bastante milho que eles exportam e esse milho está muito próximo do Oeste Catarinense, a menos de 400 quilômetros da principal região consumidora”, comenta o Secretário de Agricultura Pesca e Abastecimento do estado, Airton Spies.

Com o milho vindo do Paraguai, o valor de importação fica até ¾ mais barato. Isso porque a distância diminui em quase 1.500 quilômetros, fazendo com o que valor do frete seja mais barato. Esse milho passará pela província de Missiones, na Argentina e entrará no Brasil pela aduana de Dionísio Cerqueira.

Apesar da iniciativa de trazer o milho de outro país já estar em estágio avançado, existe outra dificuldade que precisa ser sanada: a própria aduana. Ela é de fato, tecnológica, mas a falta de funcionários para trabalhar com um grande fluxo de caminhões é algo que precisa ser revisto, já que a expectativa, de acordo com o secretário é trazer aproximadamente um milhão de tonelada por ano do Paraguai.

Outra alterativa para baratear os custos de produção de proteína animal, principalmente, é a criação de ferrovias fazendo a ligação entre os Estados que mais produzem e Santa Catarina.

Diversificar a alimentação dos animais

A busca por novas alternativas de grão de inverno para compor a dieta dos animais também é uma opção para suprir a falta do milho, principalmente nas épocas mais frias do ano. O trigo e a cevada, quando de alta produtividade, podem ser utilizados para a fabricação de ração animal, em conjunto com o milho.

Além dessas, o secretário sugere ainda mais uma opção que poderia amenizar a condição do estado de Santa Catarina: acionar mais às políticas de mercado. Ele destaca que isso é responsabilidade da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) e que a legislação garante o subsidio do frete para a transferência do milho em território nacional e não apenas para exportação, “aí beneficia tanto quem produz quanto quem consome”, finaliza.

O diretor executivo do Sindicarne/ACAV, Ricardo Gouvêa, também indica que esses dois pontos trabalhados juntos, podem auxiliar na regularização principalmente do preço do grão de milho. Concordando com a posição do secretário, ele ainda comenta que a longo prazo viabilizar as ferrovias e a cabotagem para o transporte de grãos para as regiões consumidoras de milho no país é uma das alternativas mais viáveis.

A Copérdia indica que o incentivo à mecanismos que viabilizam economicamente a produção de milho em Santa Catarina também poderia ser uma das alternativas para tirar o Estado desta situação e cita ainda a necessidade de uma política de garantia de preço para oferecer segurança em renda para os produtores que investem na cultura.

Vilson Spessato, presidente em exercício da ACCS lembra de um ponto que, segundo ele, o Estado deveria ter como prioridade: o turismo de grãos dentro do país. “Algumas cooperativas de Santa Catarina não tendo capacidade de armazenagem na safra, acabam vendendo pra outros estados ou ainda levando a portos para a exportação”, fala Spessato. Apesar das dificuldades, ele lembra que tanto os produtores, quanto as empresas e cooperativas precisam se manter otimistas. “Precisamos olhar para um futuro mais promissor, tendo uma melhor sintonia entre produtor, indústria, governo, e mercados consumidores. Só assim conseguiremos ter uma estabilidade na produção com qualidade de vida no meio rural e sucessão familiar” , finaliza o presidente em exercício da Associação Catarinense dos Criadores de Suínos.

Fotos shutterstock

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